O episódio 4 de In the Clear Moonlit Dusk, intitulado ‘Temperatura do Amor’, oferece uma rica discussão sobre o papel do olhar e do toque físico na trama. A análise aprofundada desses elementos revela as nuances da relação entre os personagens.
O Olhar em In the Clear Moonlit Dusk
Desde os primeiros momentos do episódio, a discussão sobre o olhar é provocada. Ichimura expressa aos seus amigos o desejo constante de observar Yoi e de testemunhar suas diversas reações. Um de seus amigos interpreta isso como ‘amor à primeira vista’, mas essa interpretação é questionável. O desejo de olhar para alguém não se traduz diretamente em amor, mas sim em desejo. A natureza e a manifestação desse desejo merecem uma análise mais aprofundada.
Teoria do Olhar Cinematográfico
A teoria mais conhecida sobre o olhar cinematográfico é a de Laura Mulvey, que cunhou o conceito de ‘Olhar Masculino’ em seu ensaio ‘Prazer Visual e Cinema Narrativo’. Mulvey identifica três tipos de olhares:
1. O olhar do diretor e da câmera. 2. O olhar de personagens masculinos ativos sobre personagens femininas passivas. 3. O olhar da audiência, que se deleita com as dinâmicas patriarcais.
Nos últimos cinquenta anos, a teoria de Mulvey foi ampliada e complexificada, incorporando análises mais interseccionais, como o ‘Olhar Opositor’ de bell hooks. A teoria do olhar de Lacan é complexa e, embora relevante, não será detalhada aqui.
Aplicação da Teoria ao Anime Shoujo
A teoria do Olhar Masculino de Mulvey não se aplica totalmente a In the Clear Moonlit Dusk, pois a obra é um mangá shoujo, criado por uma artista feminina para um público feminino. Não há um olhar masculino presumido neste contexto. Em vez disso, o foco recai sobre o papel do olhar de Ichimura na história. O desejo de Ichimura de observar Yoi é a força motriz central da narrativa; a identidade de gênero dela é mediada pela forma como ele e outros a veem, e se isso entra em conflito com sua identidade interna.
Dinâmica do Olhar Masculino em Histórias para Mulheres
A forma como o olhar do interesse amoroso masculino se manifesta em histórias para o público feminino heterossexual é um ponto crucial. É interessante comparar se essa dinâmica difere em animes e mangás de obras ocidentais, como a saga Crepúsculo.
O Contraste do Olhar de Ichimura
O olhar de Ichimura se distingue dos demais. Durante um encontro para comer gyoza, ele e Yoi sentam-se frente a frente, trocando olhares. A refeição é interrompida pelos amigos de Ichimura, que também estão no restaurante. Quando ele se recusa a deixá-los sentar à mesa com eles, os amigos se acomodam no balcão para observar e provocar o casal. Em resposta, Ichimura senta-se ao lado de Yoi para bloquear a visão deles.
Ichimura não está apenas protegendo Yoi, mas também preservando sua própria capacidade de observá-la. Embora a atitude dos amigos seja indelicada, Yoi permanece em silêncio até que Ichimura aja para detê-los, sem antes verificar se a situação a incomoda. O olhar de Ichimura é ativo e possessivo, enquanto Yoi se mostra passiva diante dos olhares alheios; ele assume a responsabilidade de manter essa ‘posse’. Ela é dele para ser observada, e de mais ninguém. Uma vez estabelecida essa dominação, ele avança, colocando a mão sobre a dela na perna, apesar da solicitação explícita dela no início da série para que ele não o fizesse.
Ele continua a observá-la durante todo o tempo em que estão sentados lado a lado, até que são novamente interrompidos por olhares externos: desta vez, um par de jovens mulheres que os veem e presumem que são dois meninos flertando. Yoi rapidamente retira a mão, envergonhada. O episódio continua no caminho para casa, com Yoi e Ichimura prolongando a conversa sobre seus sentimentos. No início do episódio, ela ficou chateada com ele porque ele ainda não havia declarado seus sentimentos. Agora, Ichimura afirma que ainda não tem certeza do que sente, mas deseja testar esses sentimentos tocando-a de diversas maneiras, como segurando as mãos. Ele até se inclina para um beijo, mas para, alegando preocupação com hálito de alho.
A Evolução do Toque de Ichimura
A forma como o enquadramento do toque de Ichimura mudou desde o início da série é notável. É importante questionar a eficácia de seus ‘testes’ e como o toque se insere nas dinâmicas de poder do relacionamento.
Reflexões de Yoi
De volta para casa, Yoi reflete sobre seus sentimentos e como ela passou de um estado de desconforto em relação a ele para o desejo de que ele se apaixone por ela. Ela esclarece que não deseja que ele a ache bonita ou que expresse desejo físico; ela espera que ele desenvolva sentimentos genuínos de afeto e companheirismo. Ao final, ela pensa: ‘Que maneira egoísta de pensar’. O episódio então mostra Ichimura deitado na cama, pensando por que ele parou de beijá-la, acreditando que não conseguiria se conter para não ir além.
É interessante notar que Yoi não filtra seus pensamentos através de seus próprios desejos, mas sim através do que ela espera de Ichimura. Isso nos leva à compreensão de que o papel do olhar, ao longo do episódio, sugere que olhar e desejar são masculinos, enquanto ser olhada e desejada é feminino. Por Yoi querer ser vista como feminina, ela sente vergonha de seus próprios desejos e só consegue pensar em seu relacionamento em termos de como ela quer que ele aja sobre ela, em vez de como ela quer agir sobre ele. Mesmo assim, ela se sente envergonhada por desejar tanto. Ichimura, como o homem e a parte ativa, reflete apenas sobre seus próprios desejos e ações.
O Confronto Final
A cena final do episódio nos remete novamente ao olhar: Yoi evita Ichimura, então ele a encurrala e faz um ‘kabedon’. Ela diz que sente que não consegue olhá-lo nos olhos, e eles discutem sobre renegociar os limites. Finalmente, ela pensa: ‘Sinto que alguma emoção que o olho não pode ver está gradualmente me mudando’. As últimas linhas do episódio trazem uma poderosa reflexão sobre a complexidade das emoções e a transformação pessoal.



