Mitologia Grega em animes e mangás: Adaptações mágicas

A mitologia grega animes e mangás tem sido uma fonte inesgotável de inspiração, transcendendo fronteiras e culturas. Enquanto no Ocidente vemos a mitologia grega em séries de livros como Percy Jackson e filmes épicos, no Japão, essa rica tradição encontrou um terreno fértil para adaptações criativas em mangás e animes, transformando histórias milenares para um público moderno.

A Fascinação Japonesa pela Mitologia Grega

A universalidade da mitologia reside em sua capacidade de ressoar com novas audiências, sendo reinterpretada e familiarizada. Para o público anglófono do século XX, antes da era digital, essa familiarização começou com obras literárias como a tradução enciclopédica de Robert Graves e romances como “The God Beneath The Sea” de Leon Garfield. Adaptações cinematográficas como “Jasão e os Argonautas” (1961), com seus monstros animados por Ray Harryhausen, ou a versão musicalizada da Disney de “Hércules” (1997), seguiram essa tendência.

No Japão, a curiosidade pela mitologia grega iniciou-se de forma semelhante, com traduções que rapidamente abriram caminho para um novo meio. A obra de Graves foi traduzida para o japonês por Ichiro Takasugi em 1973, e a de Garfield chegou em 1975, marcando o início de uma nova era de adaptações.

Pioneiros da Mitologia Grega no Manga e Anime

Unico (Osamu Tezuka)

Em 1976, Osamu Tezuka, reverenciado como o “Deus do Mangá”, lançou “Unico”, uma série infantil que explorava a jornada de um unicórnio. Unico foi separado de sua amiga humana Psique pela inveja da deusa Vênus. Tomada pela fúria, Vênus exilou Unico da Grécia Antiga para a Colina do Esquecimento. No entanto, a bondosa deusa Zéfiro, inicialmente a “segunda estrela” e depois o “Vento Oeste”, interveio, enviando Unico para diferentes tempos e lugares para que ele pudesse ajudar a humanidade, sempre mantendo-o um passo à frente da ira de Vênus.

Triton do Mar (Osamu Tezuka)

Tezuka revisitou a mitologia grega em seu mangá de 1969, “Triton do Mar”. Assim como “Unico” em 1979, esta obra foi adaptada para anime em 1972, tornando-se um dos primeiros exemplos de animes com temática mitológica. Ele também explorou a Ilíada em “Phoenix: Early Works”, oferecendo uma perspectiva infantil única.

Panteão Grego e Kami Japoneses

É interessante notar que os deuses gregos são referidos no Japão como “Orinposu jū ni shin”, os doze kami do Olimpo. A palavra “shin” utiliza o mesmo kanji e pronúncia de “Shinto”, sendo uma forma de ler “kami” baseada na pronúncia chinesa. Existem paralelos fascinantes entre os olímpicos e certos kami, como Deméter e Amaterasu Omikami, que foram estudados por acadêmicos de Clássicos e do Xintoísmo.

O Impacto de Sailor Moon e Saint Seiya

Pretty Guardian Sailor Moon (Naoko Takeuchi)

“Pretty Guardian Sailor Moon” de Naoko Takeuchi, é uma das maiores influências na popularização da mitologia grega animes. A série reconta a história de Selene e Endymion, transformando-a em um romance trágico ao estilo Romeu e Julieta. Foca-se no príncipe da Terra, Endymion, e na Princesa da Lua, Serenity. Na versão original do mito, Selene, a Titã da Lua, se apaixona por um pastor, Endymion. Devido às complexas regras cósmicas que regem o amor entre deuses e mortais, Endymion é lançado em um sono eterno, e Selene lhe dá cinquenta filhas.

Elementos da mitologia grega permeiam a série, como os poderes das Guardiãs (embora as habilidades de Saturno e Plutão sejam trocadas), e a aparição de Hélio no arco Dream/Super S. Há também a referência a Elíseos, um reino místico paralelo à Terra, onde Hélio intercede pela humanidade, mantendo uma forte ligação com o sol, Mamoru Chiba/Tuxedo Mask (que representa a Terra) e o Cristal Dourado.

Saint Seiya (Masami Kurumada)

Masami Kurumada em “Saint Seiya” (Cavaleiros do Zodíaco) utiliza diferentes elementos da mitologia grega para construir uma narrativa igualmente cativante. Atena, filha de Zeus, reencarna periodicamente na Terra, e os Cavaleiros são seus guardiões. Cada Cavaleiro possui uma poderosa Armadura nomeada em homenagem a uma constelação. A série original de Kurumada apresenta Cavaleiras, que, embora poderosas, são mascaradas e despojadas de sua sexualidade.

Neste universo, os deuses gregos são reais e sua presença se expande no spin-off “Saintia Shō”, que introduz as donzelas de Atena. Elas devem lutar contra a deusa maligna Éris para salvar a humanidade da discórdia que ela tenta semear. As Saintias trabalham diretamente com Atena, e suas histórias se entrelaçam com vários arcos da série original, incluindo aparições de Cavaleiros bem conhecidos. Atena é retratada como uma deusa que também é humana, consequentemente mais fraca que seus irmãos ou parentes divinos. Muitos dos deuses de Kurumada, incluindo os de outros panteões, são malignos, enquanto outros, como sua irmã Ártemis, estão ao lado de Atena. Alguns apenas observam os acontecimentos na Terra por diversão ou para seus próprios planos. Apesar de sua mortalidade, as histórias também focam no crescimento pessoal de Atena, enquanto ela aprende as lições inerentes à vida humana.

Adaptações Modernas e Outras Influências

Franquia Fate

Fãs mais recentes que buscam mitologia grega animes e mangás devem explorar a franquia “Fate”, o popular Nasuverse, que inclui magos, vampiros e, claro, as Guerras do Santo Graal. Embora personagens como Saber sejam mais conhecidos, a história da Type-Moon remonta à Era dos Deuses, quando vários panteões, incluindo o grego, caminhavam pela Terra.

Kamigami no Asobi

“Kamigami no Asobi” é um visual novel (e posteriormente anime) que permite à protagonista, Yui, viver romances com deuses, incluindo Dionísio, Apolo e Hades, além de deuses dos panteões nórdico e egípcio.

Is It Wrong to Try to Pick Up Girls in a Dungeon?

Nesta popular franquia de dungeon crawler, os deuses formam a espinha dorsal do mundo. Deusas como Héstia, Astreia e Hefesto, e deuses como Apolo, Dionísio e Hermes, atuam como patronos de Famílias importantes na série.

A Janela de Orfeu (Riyoko Ikeda)

Embora “A Rosa de Versalhes” não contenha mitologia grega, outras obras de Riyoko Ikeda, como “Orpheus no Mado” (A Janela de Orfeu), fazem referência ao gênio musical que desceu ao Submundo para resgatar sua esposa, Eurídice.

Ulysses 31

“Ulysses 31”, conhecido no Japão como “Uchū Densetsu Yurishīzu Sātīwa”, é um anime de 1985 que reimagina “A Odisseia” como uma ópera espacial ambientada no século XXXI, com robôs e alienígenas. Os deuses são seres cósmicos que se manifestam por todo o universo, mas a essência da história permanece a mesma. A série segue a tentativa de Ulisses de retornar para casa com seu filho Telêmaco, a alienígena Thémis (ou Yumi na dublagem em inglês) e um robô chamado Nono. O restante da tripulação é colocado em animação suspensa, e a rota de volta para casa é apagada do computador de sua nave.

A série incorpora muitos elementos do poema épico original, como conflitos com o Ciclope e a travessia por Cila e Caribde, mas com uma roupagem de ficção científica, onde planetas substituem ilhas. Há também um episódio notável de viagem no tempo em que Ulisses encontra seu ancestral durante a era do épico original.

Animes e mangás são mídias naturalmente transformadoras. O legado da mitologia reside em sua capacidade de ressoar com novas e antigas gerações, viajando através dos séculos e sendo contada a novos públicos. Histórias sobrevivem ao serem reencarnadas em novas mídias, e o Japão abraça mitos estrangeiros, transmitindo-os a novas gerações de uma forma singularmente japonesa. Assim como somos fascinados pela mitologia e folclore japonês, os japoneses são igualmente cativados pelas lendas de deusas, pastores e maçãs douradas em casamentos.

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