O filme The Moment, dirigido por Aidan Zamiri, oferece uma visão fictícia e muitas vezes caótica das consequências do sucesso estrondoso de Charli XCX após o lançamento do álbum ‘Brat’ em 2024. A obra, que marca a estreia de Zamiri em longas-metragens, conhecido por seus videoclipes com a artista, captura uma energia sedutora e momentos de humor ácido enquanto explora a ansiedade de uma megastar da música diante da possível saturação de sua imagem. A narrativa se aprofunda na vulnerabilidade de uma celebridade que teme seu próprio excesso de exposição, um ponto de partida surpreendentemente autocrítico.
Embora apresente qualidades notáveis, The Moment, ironicamente, se estende além do necessário. A febre de ‘Brat Summer’, com seu icônico verde neon, dominou o cenário musical, e o filme recapitula essa ascensão meteórica através de montagens de notícias. Após contextualizar o público, a trama acompanha Charli XCX e sua equipe de perto nas semanas que antecedem a turnê de ‘Brat’ em 2025, revelando os conflitos criativos e as tensões internas. A obra se aproxima de um falso documentário apenas em um sentido técnico, com raras interações dos personagens com as câmeras. No entanto, sua essência é melhor compreendida como um drama direto, filmado com uma perspectiva voyeurística e de câmera na mão.
O filme The Moment brilha em seus momentos de farsa inicial, mas perde força ao se inclinar para temas mais melodramáticos no ato final. A influência de diretores como os irmãos Safdie e Gaspar Noé é perceptível, com o uso de conversas claustrofóbicas e legendas estroboscópicas. A textura visual é implacável, mas nem sempre corresponde à profundidade do conteúdo. Após uma série de montagens que reforçam a premissa, a narrativa avança, mostrando executivos tomando decisões em nome de XCX e seu hilário gerente, Tim (Jamie Demetriou), propondo esquemas promocionais absurdos, como um cartão de crédito temático de ‘Brat’.
O humor seco, reminiscente da versão britânica de ‘The Office’, complementa o estilo de Zamiri. Charli XCX encarna uma versão esgotada e fragilizada de si mesma, expondo suas inseguranças mais íntimas em meio a cenas de festas noturnas. A performance da artista é um destaque, com desvios dramáticos para personagens secundários, como Celeste (Hailey Benton Gates), amiga e diretora criativa de XCX, cuja visão para a turnê é desafiada pelo diretor de shows Johannes (Alexander Skarsgård), que busca suavizar a imagem da popstar. Celebridades como Kylie Jenner e Rachel Sennott participam, interpretando versões exageradas de si mesmas, reforçando a verossimilhança do projeto.
Contudo, o ponto de vista artístico do filme The Moment é questionável. Em meio a caricaturas, Charli XCX é a única figura tridimensional, lutando por autonomia contra uma série de personagens superficiais. A obra beira a misantropia, especialmente em cenas com fãs, onde as lutas de saúde mental de um deles são tratadas com um humor cruel. Embora seja louvável que XCX, idealizadora do filme, desconstrua sua própria imagem de celebridade, o resultado por vezes se assemelha a um ato de gerenciamento de marca, insinuando que, apesar do glamour, ela é humana, mas também um gênio criativo, e seus compromissos são parte de um plano maior. A abordagem visual de Zamiri, com seu uso de cores intensas e o verde saturado para evocar uma sensação de mal-estar, sugere que XCX está sendo consumida pelo próprio sucesso. No entanto, o filme The Moment falha em conectar esses elementos visuais de forma emocionalmente coerente, deixando lacunas na compreensão da personagem e de sua trajetória. O final abrupto, com monólogos dramáticos explicativos, não se harmoniza com o restante da obra, encerrando a experiência de forma insatisfatória.



