A série Wonder Man da Marvel se tornou um exemplo notável do que é conhecido no universo do streaming como ‘Surf Drácula’. Este termo, que surgiu de um tweet viral em 2021, descreve produções que prometem um momento grandioso logo de início, mas estendem a construção narrativa por uma temporada inteira ou mais, antes de entregar o clímax esperado.
O conceito ‘Surf Drácula’ ilustra uma das principais críticas à era do streaming. Embora ofereça conveniência e acesso a diversos conteúdos, essa modalidade muitas vezes resulta em temporadas mais curtas, longas esperas entre elas e uma profusão de produções esquecíveis. A promessa de uma experiência imediata é frequentemente substituída por uma jornada prolongada até o ponto central da trama.
O Fenômeno ‘Surf Drácula’ no Streaming
Exemplos notórios desse padrão incluem a série live-action de Halo no Paramount Plus, onde a estação espacial Halo não apareceu na primeira temporada. Outro caso é O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, do Prime Video, que após duas temporadas ainda não mostrou o Senhor do Escuro Sauron forjando os anéis. Resident Evil da Netflix, cancelada após a primeira temporada, tinha planos de mostrar o surto zumbi apenas no final da terceira.
Agora, Wonder Man da Marvel se junta a essa lista. Os trailers da série apresentavam uma premissa intrigante: um ator com superpoderes que precisa escondê-los para conseguir um papel em um filme de super-herói em Hollywood. Esta ideia não só era um gancho astuto, mas também uma meta-crítica ao próprio Universo Cinematográfico Marvel e seu domínio cultural.
A Jornada Lenta de Wonder Man
Contrariando as expectativas, Wonder Man adota uma construção lenta. Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II) é um ator em dificuldades em Los Angeles. Sua sorte começa a mudar ao se tornar amigo de Trevor Slattery (Ben Kingsley), um ator decadente famoso por se passar por um terrorista, o Mandarim. Ambos fazem testes para um filme de alto perfil, também chamado Wonder Man, um remake de um filme de super-heróis que Simon guarda com carinho.
O processo de seleção para o elenco se arrasta por vários episódios. A série desvia para uma comédia de amigos, desenvolvendo a cativante amizade entre Simon e Trevor. Antes da questão da escalação ser resolvida, os espectadores são levados por episódios onde Simon e Trevor discutem com Joe Pantoliano (interpretando a si mesmo), visitam a casa de infância de Simon para uma reunião familiar, e se envolvem em uma aparente disputa de drogas. Há também um episódio de flashback que explica o motivo da proibição de super-heróis em Hollywood.
Embora essas subtramas sejam, em sua maioria, envolventes (a reunião familiar, apesar de arrastada, tem seu valor, e o flashback se destaca), elas contribuem para uma série que muitas vezes parece estagnada, em vez de avançar na narrativa prometida. No entanto, Wonder Man é considerada uma excelente série, uma das melhores da Marvel. Quando a história finalmente alcança a premissa original, a recompensa é gratificante. O único lamento é o tempo que leva para chegar a esse ponto, especialmente para uma série de streaming cujas chances de renovação são mínimas. Apesar de um final que abre possibilidades para Simon e Trevor aparecerem em outros projetos do MCU, uma segunda temporada é improvável. No balanço final, Wonder Man pode ser o melhor ‘Surf Drácula’ já feito, o que, de certa forma, é um mérito.



