O ex-CEO Marvel, Peter Cuneo, que liderou a empresa em um período crucial e supervisionou sua venda para a Disney, oferece uma perspectiva única sobre a ascensão do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) e os desafios que a franquia enfrenta atualmente, especialmente após “Vingadores: Ultimato”.
O Resgate da Marvel e a Virada Estratégica
Cuneo, que assume o comando da Marvel em 1999, revela que não possuía uma paixão prévia pelos quadrinhos, conhecendo apenas o Homem-Aranha e o Hulk. Contudo, enxergou na empresa, que se recuperava de uma falência, um desafio irresistível. Sua visão era de que a falta de familiaridade com o setor permitia identificar falhas e implementar mudanças radicais.
Ele destaca que sua função não era interferir na criação dos quadrinhos, mas sim no aspecto de negócios. Cuneo foi fundamental para trazer de volta talentos, como o editor-chefe Joe Quesada, e para o lançamento do selo “Ultimate”, que rebootou histórias de grandes heróis. Essa estratégia abriu portas para novos leitores que se sentiam intimidados pela longa continuidade dos quadrinhos tradicionais.
O sucesso inicial dos filmes da Fox (X-Men) e Sony (Homem-Aranha) no início dos anos 2000, cujos direitos haviam sido licenciados antes de Cuneo, gerou receitas cruciais para a Marvel, que se beneficiava das porcentagens sobre bilheteria e vendas de DVD. Esse período foi vital para a recuperação financeira da empresa.
A Criação do MCU: Aposta em Personagens, Não em Estrelas
Apesar do sucesso com licenciamento, a liderança da Marvel, especialmente Avi Arad, fundador da Marvel Studios, acreditava que a empresa poderia produzir seus próprios filmes. Em 2006, a decisão foi tomada: a Marvel faria seus próprios filmes, com a convicção de que poderiam ser mais eficientes e baratos que os grandes estúdios.
Uma estratégia ousada foi a de focar nos personagens, em vez de grandes nomes de Hollywood. Cuneo recorda que havia ceticismo em relação à escolha de Robert Downey Jr. para Homem de Ferro, devido a problemas pessoais do ator. No entanto, o teste de tela de Downey Jr. foi fenomenal, e o resto, como se diz, é história.
A Venda para a Disney: Uma Decisão Inevitável
Com o sucesso estrondoso de “Homem de Ferro”, a Marvel estava em excelente forma financeira. Cuneo explica que a venda para a Disney em 2009 não foi uma busca ativa, mas uma obrigação acionária. Uma oferta não solicitada que representava um aumento de 50% sobre o valor de mercado das ações não poderia ser recusada sem risco de processos.
Para o ex-CEO Marvel, a Disney era a compradora ideal, pois já possuía uma vasta experiência em monetizar personagens e produtos em diversas mídias, algo que a Marvel buscava expandir.
Os Desafios Atuais do MCU
Desde “Vingadores: Ultimato” (2019), o MCU tem enfrentado dificuldades para replicar o mesmo sucesso de crítica e bilheteria. Cuneo oferece algumas teorias sobre o que pode ter mudado. Ele ressalta que, inicialmente, o foco estava no desenvolvimento de personagens e em suas histórias de origem, explorando suas fraquezas e forças para gerar conexão emocional com o público.
Cuneo percebe que, com a expansão do universo, essa ênfase no desenvolvimento de personagens tem diminuído. Ele argumenta que os filmes atuais parecem priorizar a ação em detrimento da construção de narrativas e da apresentação adequada de novos personagens, muitos dos quais são desconhecidos para a maioria do público. Para o ex-CEO Marvel, a falta de histórias de origem bem elaboradas e o foco excessivo em sequências de ação podem estar afetando a conexão emocional que os fãs tinham com os super-heróis.



